quinta-feira, abril 17, 2008

Na paz da aldeia

Camille Pissaro
Era uma aldeia pacata. Os velhos, acomodados nas suas casas de originais telhados azuis, olhavam para os pomares floridos e sorriam: "mais uma primavera". Os novos, cansados do que consideravam a intediante tranquilidade da vida no campo, fugiam para a cidade, à primeira oportunidade de estudos ou trabalho. Alguns voltavam, por escassos dias, nas férias, e logo tornavam a partir.

Eugénia e Faustino eram um casal de meia-idade, sem filhos. Trabalhavam no campo, nos terrenos que haviam sido dos pais de ambos e dos respectivos avós antes destes. Mais para trás não sabiam e o facto pouco ou nada lhes interessava. Contentavam-se com a retribuição que a terra lhes dava, não conheciam outros lugares, a não ser as aldeias das redondezas e a vila onde, de quando em vez, se deslocavam para tratar de assuntos importantes, como pagar as contribuições, ou comprar uns pares de botas, para substituir os velhos botins por onde a água já entrava, quando os pés se lhes enterravam na lama.

Tinham aprendido a ler e a escrever na escola local, agora fechada, por ausência de crianças que a frequentem. Para além dos livros escolares, impecavelmente arrumados numa gaveta, não existiam mais livros lá em casa, com a devida excepção do missal, ao qual davam uso aos Domingos, altura em que aproveitavam para vestir alguma roupita nova, comprada nos saldos dos restos da colecção passada na loja da vila, da última vez que lá haviam ido.

Naquela quinta-feira, de manhã bem cedo, Faustino saíu de casa, sachola ao ombro, pronto a ir cortar umas ervas daninhas que circundavam as floridas árvores do pomar em frente à casa. Eugénia manteve-se na cozinha, a arrumar a loicita do pequeno-almoço e a dar umas vassouradas nas migalhas que pejavam o chão, de ambos os lados da mesa.

De repente, no silêncio da aldeia ainda semi-adormecida, ouviu-se um grito de horror.

Em poucos minutos, os poucos habitantes da aldeia, tinham-se juntado a Faustino e contemplavam, com expressões faciais que íam do espanto ao terror, os restos mortais daquela cabrinha preta, que pertencia ao tio Joaquim e jazia, pele e osso esticados, por baixo de uma ameixeira.
"Só pode ter sido obra do chupa-cabras..., deixou-a sequinha por dentro!" comentou a Alexandrina, que aproveitava a ocasião para fazer jus à sua fama de bem-informada.
"Mas se eu tenho a certeza de que a fechei ontem com as outras no curral, mulher! Como pode ela ter escapado?" perguntava o Joaquim, perplexo, coçando a cabeça, para voltar a enfiar nela o boné.

"Ai Deus nos livre de o mafarrico andar por aí outra vez!" sussurrou, benzendo-se, uma septagenária vestida de negro.

"Não diga disparates, tia Henriqueta, que uma coisa destas nunca se viu", ripostou Faustino. "Cá para mim, isto é mas é obra dos extra-terrestres. Noutro dia lá na vila ouvi dizer que tinham aparecido umas reportagens na televisão e que eles andam por aí."
"Pois foi", acrescentou Eugénia, "até nos disseram que apareceram pessoas a contar que tinham visto luzes estranhas e objectos a passar por cima das casas, sem barulho nem nada, que até pareciam coisas do outro mundo".

"E eram", a velha Henriqueta voltava a falar, "vai tudo dar no mesmo. Vocês não me acreditam, mas o mafarrico pode tomar as formas mais esquisitas. Coisa deste mundo é que isto não é. Ora olhem-me lá para o pobre animal! E como é que ele pode aqui estar se o Joaquim tem a certeza de tê-lo fechado com os outros bichos ontem à tarde, não me dirão?"

Durante alguns momentos fez-se silêncio. Por fim, o Faustino disse:
"Bom, não vamos ficar aqui todo o dia a olhar para a cabra morta. Vamos tratar de enterrá-la e ir à nossa vida, que temos mais que fazer".
Os outros concordaram e estavam já a abrir a cova quando a tia Henriqueta deu um grito:

"Esperem. Deixem, ao menos, chamar o padre João para benzer o bicho."
"Benzer uma cabra, tia Henriqueta? perguntou Eugénia, atónita, "nunca tal se ouviu dizer".
"Não é bem por causa da cabra, que eu também não acredito que ela tenha alma, é para afastar os espíritos deste sítio, para expurgar a maldição com água-benta, para correr com o chupa-cabras, o mafarrico, os extra-terrestres ou seja lá o que for... mal não faz, e sempre a gente volta para casa mais descansada."

"Está bem, tia Henriqueta", disse Faustino, condescendente. "A Eugénia dá lá um pulinho a chamar o padre que, a bem dizer, também devia ter aparecido por aqui!... " Riu-se com ar maldoso e comentou, virando-se para os homens: "mas a esta hora ainda deve estar com os pés quentinhos, enrolado na "prima Clementina", que lhe cuida da casa e não só!..." os outros riram-se a bom rir. As mulheres encolheram os ombros, abanaram as cabeças a olhar umas para as outras e debandaram para as suas casas.

Só a tia Henriqueta, arrastando-se com a bengala, ainda vociferou para o Faustino, antes de abandonar a cena "Ah, língua viperina! Ainda hás-de ser castigado por essa blasfémia" e foi-se, sempre a resmungar "ora não querem lá ver... coitado do Padre João, quem é que havia de tomar conta dele se não fosse aquela prima com um coração abençoado? Deus nos livre de caír na boca deste povo!".

domingo, abril 13, 2008

Berlenga - Reserva da Biosfera

Transcrição de uma Nota de Imprensa divulgada pela Câmara Municipal de Peniche:


Peniche prepara candidatura da Berlenga a Reserva da Biosfera (UNESCO)

O Município de Peniche pretende que o Arquipélago da Reserva Natural das Berlengas seja classificado como Reserva da Biosfera no âmbito do programa “Man and Biosphere - MAB” promovido pela UNESCO. O primeiro passo será dado no próximo dia 14 de Abril de 2008, com a assinatura do protocolo de colaboração entre as entidades responsáveis pela elaboração do dossier de candidatura, nomeadamente Câmara Municipal de Peniche, o Instituto do Ambiente e Desenvolvimento (IDAD – Universidade de Aveiro), o Instituto Conservação da Natureza e Biodiversidade e o Instituto Politécnico de Leiria – Escola Superior Tecnologia do Mar (Peniche). Até ao final do ano de 2008 será elaborado o respectivo dossier de candidatura, esperando-se que a Berlenga seja classificada como Reserva da Biosfera em Abril de 2009. De modo a fomentar o Desenvolvimento Sustentável, a promover e demonstrar o equilíbrio entre as relações do Homem com a Biosfera no Arquipélago da Reserva Natural das Berlengas, o Município de Peniche irá apresentar em 2009 à UNESCO uma candidatura do Arquipélago das Berlengas ao galardão Reserva da Biosfera. Para a elaboração do dossier de candidatura, o Município de Peniche convidou um conjunto de entidades para elaborar a mesma - Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), Instituto do Ambiente e Desenvolvimento (IDAD – Universidade de Aveiro) e a Escola Superior de Tecnologia do Mar (ESTM) – Instituto Politécnico de Leiria. A assinatura do protocolo de colaboração decorrerá no próximo dia 14 de Abril, 15 horas, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Peniche. Nesta cerimónia estarão presentes os mais altos representantes das instituições que integrarão esta parceria.


quarta-feira, abril 09, 2008

Rosa-sem-espinhos (de novo)


A Mafalda pediu-me uma fotografia das minhas rosas-sem-espinhos para servir de ilustração a um poema seu. É com grande alegria que lhe cedo a imagem e rejubilo de felicidade ao constatar que este alvo do meu afecto, desde sempre, passou a ser partilhado pela comunidade de amigos de forma tão natural e espontânea.

Recomendo que vão visitar o "Vento Agreste" ou "A Casa no Alto do Monte", onde, com as rosas amarelas por pano de fundo, podemos assistir a uma estreia mundial da Mafalda Coimbra numa incursão pelos terrenos da poesia.
Não comento aqui.
Limito-me a agradecer a deferência.

Beijos gratos e ternos, Mafalda.