sábado, janeiro 01, 2011

Réveillon



"Vem... vem comigo"
Óleo sobre tela de Júlia Calçada



Não estava frio mas era, sem dúvida, uma noite de inverno.

O céu, pintado de negro,  abria-se, de quando em vez,  para  deixar cair mantos de chuva cerrada que, rapidamente, escondiam estradas. Em seu lugar surgiam rios, com furiosos caudais que tudo arrastavam. Raios de luz cegavam, momentaneamente, quem os olhava de frente, que logo de seguida ensurdecia, sem possibilidade de aguardar uns segundos pelo estrondo dos trovões.

Poderia tratar-se de uma tempestade tropical, em pleno verão, num outro local. Mas era inverno -  a última noite do ano, no hemisfério norte do planeta que incessantemente nos transporta, em movimentos de rotação e de translação, sem que disso nos consigamos aperceber. 

Ela estava deslumbrante, vestida a rigor para uma noite de festa. Disse-lhe: "Vem... vem comigo!". Ele foi. Segui-la-ia, a nado, se necessário fosse, contra a força das enxurradas que, lá fora, iam cobrindo o mundo material até há minutos conhecido de ambos.

Afinal, nada de heróico seria necessário da sua parte para lhe fazer a vontade: era tão-somente para o andar de cima que ela o convidava. Subiu os degraus, no seu encalço, não arriscando perder o rasto do perfume que, na escuridão da casa, apenas entrecortada pela luz dos raios que não cessavam de imitar um esplendoroso fogo-de-artifício, lhe servia de guia e salvação.

Entraram no quarto dela onde, providencialmente, velas haviam sido distribuídas, fornecendo a luz suficiente para que pudessem usufruir do jantar, servido na mesa redonda, junto a uma janela adornada com grossos cortinados de veludo.

Ele ainda pensou, por momentos, nas possíveis tragédias que, naquela inimaginável noite de passagem de ano, poderiam estar a ocorrer fora do aconchego da casa, do quarto onde se encontrava, suavemente iluminado e docemente aromatizado,  num ambiente quase mágico.

Completamente à mercê dos sentidos, seduzido pela beleza e sensualidade da sua anfitriã, ao segundo copo de champanhe já esquecera a tempestade, o mundo lá fora, a desgraça iminente das gentes, esses outros que não tinham um refúgio.

As doze badaladas fizeram-se ouvir no relógio antigo, próximo deles, na parede junto à janela. Brindaram ao novo ano, como se mais ninguém existisse no mundo e a vida pudesse ser sempre assim!

Francisco acordou sobressaltado, com o ruído das águas que, de rompante, lhe entravam no quarto, prestes a atingir a cama, a escassos três palmos do chão. Ouviu gritos lá fora, alguém que pedia ajuda... como é que pudera adormecer com aquele temporal, sozinho no seu casebre, no fundo duma rua estreita e íngreme, leito natural de qualquer cheia? Com a fugaz luz dum relâmpago vislumbrou a sua companheira de réveillon: uma garrafa de aguardente, completamente vazia. 

Em menos de um minuto apercebeu-se de tudo. Não havia agora em que pensar, o necessário era agir. Num único salto, saiu da cama e em breve alcançou a porta da rua, que começava a ceder com a força da enchente. Ao abri-la, tombou-lhe nos braços uma jovem mulher que, agarrada com ambas as mãos ao batente da sua porta, começava a perder as forças e teria sucumbido à força da corrente, se mais dois minutos tivessem decorrido.

Pegou-lhe ao colo, subiu em corrida as escadas que  levavam ao sótão, onde a sentou a salvo, num velho sofá. Tirou-lhe a roupa molhada e embrulhou-a bem numa manta. Depois, aconchegou-se a ela e começou a falar-lhe, a tentar que ela se mantivesse acordada, lúcida, quente e, sobretudo, viva.

Logo, logo, ao raiar da manhã, no primeiro dia do novo ano, chegariam, seguramente, os socorros da autarquia!


24 comentários:

Rosa Brava disse...

Lindo... na leveza quer da pintura (que é linda), quer na descrição do texto, que se torna a relização de um sonho...

Passei para te deixar um abraço, numa visita que já tardava, mas a Vida nem sempre nos dá o tempo disponível para tudo, desejar-te um Feliz 2011 com a concretização dos teus sonhos e ânseios.

Um abraço carinhoso e Feliz 2011

maria carvalhosa disse...

Obrigada pelas tuas palavras, querida Amiga.

Também para ti vão os meus votos de que em 2011 encontres a concretização dos teus desejos (sobretudo dos mais secretos ;)).

Beijos grandes. Tudo de bom para ti, que bem o mereces!

Maria disse...

E depois de te ler no face vim até aqui...
Reconheço a maior interactividade do fb, mas continuo a gostar muito dos blogues. São mais... livros!
:)

Beijo.

Graça Pires disse...

Um texto muito belo e cheio de sensibilidade. Ainda bem que voltaste.. Estava com saudades de te encontrar aqui.
Um beijo grande e um ano Bom.

sindro disse...

Oi Adorei o seu texto, passe lá no meu blog de textos, até mais, beijo.

maria carvalhosa disse...

´Tão bom voltar a ter um comentário teu no meu blog, Graça! Obrigada, Amiga. Beijo saudoso.

maria carvalhosa disse...

Obrigada pelo seu comentário, Sindro.
Já visitei o seu blog e gostei do que vi. Voltarei para ler outros textos.
Já a adicionei aos sítios que visito.
Um abraço.

A.S. disse...

Ah! É uma delicia ler-te! Sempre...


Beijo,
AL

maria carvalhosa disse...

Obrigada, Albino. Não imaginas como fico feliz por teres vindo visitar-me aqui, neste meu blogue que tenho deixado tão ao abandono, quase desprezado! Estou agora a ganhar alento para voltar a relançá-lo, com o carinho que me merece. Vejamos se chego a bom porto...

Um beijo com carinho.

A.S. disse...

Quero agradecer-te as palavras bondosas que deixaste no POLIEDRO. É fácil perceber a grande paixão que tenho pela poesia, mas para mim, as tuas palavras, apesar de excessivas no elogio, são o mais forte estimulo para que continue a escrever, desenvolvendo o meu estilo próprio, com a seriedade de quem faz aquilo que gosta! Mais uma vez obrigado pelo carinho e incentivo!

O meu abraço Amigo!
AL

maria carvalhosa disse...

Não houve qualquer exagero nas minhas palavras, Albino. Não sejas modesto, que não te fica bem!... ;)
Também não há qualquer dúvida sobre a seriedade com que constróis os teus lindos poemas, de um estilo muito próprio (é verdade), mas numa craveira muito acima do que é comum, sobretudo na temática de que gostas. Continua, Albino, para teu próprio prazer e para o dos teus muitos leitores.

Beijo-te com carinho e amizade.

Benó disse...

Hoje foi o dia para visitar os amigos.
Deixo um abraço e levo a vontade de voltar.
Vemo-nos no FB.

maria carvalhosa disse...

Obrigada pela visita, amiga. Também passei pelo teu jardim, mas tenho que lá voltar, com mais tempo. Como dizes:vemo-nos no FB! Beijo.

imagination walks disse...

Olá,

gosto imenso do seu blog.

Muitos Parabéns!

maria carvalhosa disse...

Obrigada, imagination walks.

Justine disse...

Bem aparecida seja:)))) E não desapareças de novo, está bem?
Beijo

Graça Pires disse...

Maria, o dia 1 de Janeiro já passou há muito tempo...
Saudades e um beijo.

Valquíria Oliveira Calado disse...

Olá,
Vim deixar-te uma palavra pra meditar, se gostar pode visitar o http://hanukkalado.blogspot.com/
lá terá saciada tua sede de entendimento das palavras de Jesus.
Assim, inteligência espiritual seria a habilidade ou a capacidade de crer em uma mente criadora e universal e se interagir com ela. O conhecimento desta resulta no aumento da fé. Ou seja, quanto mais conhecemos os princípios divinos, mais experimentamos e interagimos com o Criador. Jesus nos ensinou e abriu esta “porta” do entendimento, nos despertando para grandes mudanças interiores que produzem sabedoria, paz, equilíbrio e um ambiente propício para o aperfeiçoamento e descoberta de novos valores e propósitos de vida.
Abraço de paz.

A.S. disse...

Vim ler-te e rever-te!...


Beijo,
AL

Justine disse...

Gatos - uma paixão, um mistério partilhado:))))
(É bom ler a tua prosa limpa e ritmada...)

Vieira Calado disse...

Passei para retribuir os seus votos, na sua visita.

Beijinhos

Mel de Carvalho disse...

Maria, para começar, dizer-lhe que tinha saudades de a ler, a que, acrescento, de a rever. Tenho de alguma forma andado ausente de eventos literários, para além de comentar pouco (sempre). Depois, dizer-lhe que a sua escrita, um misto magia e realidade, nos conduz por caminhos belíssimos de uma prosa consistente de quem domina o verbo.
Tão bom lê-la, Maria.
Um beijo com carinho
Mel

Hanukká disse...

Olá, um abraço de paz pra seu coração.

“O verdadeiro amor ferve, mas não derrama. O amor a Deus, assim como é sincero e sem hipocrisia, é constante e sem apostasia”.

Thomas Watson

Daniel Hiver disse...

Olá Maria...
Vim aqui logo depois que fui apanhado de surpresa por teu amável comentário lá em meu blog.
As coisas são assim por aqui. Pessoas que terminam se cruzando por que tem amigos e terminam em contato com os amigos dos amigos.
Sobre o teu texto a reação que tive me levou para o terreno dos sonhos. O que é de verdade confrontado com o que é um sonho.
Quanta coisa boa almejamos; quantas coisas que gostaríamos que acontecessem. De repente acontece e a sensação é de estasiamento e, num segundo, um barulho nos acorda e aquilo que estava tão bom é interrompido impiedosamente por que era apenas um sonho.
E é assim que a vida continua e muitas vezes o que pensamos ser apenas um sonho é na verdade, de verdade.