"varanda de pilatos" - foto de António Rodrigues
Não me perguntes pelos dias passados na solidão do meu quarto.
Fala-me dos corvos plantados ao sol, num rochedo inóspito;
diz-me do som das ondas, poderosas e alvas, a desfazer-se na areia;
recorda-me do cheiro a maresia, quando a praia fica imensa, na maré-baixa;
traz até mim a brisa morna do fim da tarde, nas dunas;
conta-me da hora do ocaso, no horizonte, do arquipélago que é a nossa casa;
sussurra-me palavras ternas, no aconchego da sala, iluminada pelo fogo na lareira;
beija-me infindavelmente;
toma-me nos teus braços e deixa-me adormecer, de cansaço, aninhada em ti:
a cabeça no teu peito;
a alma leve, radiante, saciada.