sábado, fevereiro 24, 2007

Noite



Caíu a noite.
Senti-me só.

Acendi a lareira.

Fenómeno curioso,
como que por encanto
as labaredas bailavam, bailavam
e a minha angústia e esta dor no peito
foram juntar-se a elas.

Tempo depois...

Aparecem as cinzas.
O calor e a luz esvaem-se
e eu, fico triste outra vez.

A fogueira,
para se manter alegre, com luz,
cor, vida,
necessita de alimento, tal qual o meu ser.

Levanto-me,
Lanço mais lenha
na fogueira.

Novamente
o calor inunda o meu corpo
e a minha alma renasce.
Noémia Carvalhosa
"Ciclo Vicioso - a fogueira e eu "
(Ponte do Arco)


quarta-feira, fevereiro 21, 2007

A Obra (Ponte do Arco)



A casa. A casa térrea, extensa, com inúmeras janelas e portas. A casa, pintada de branco, com a tradicional risca azul que se estende aos muros envolventes, marca de um passado de aristocracia rural, orgulhosamente decadente. A buganvília, linda de se ver, em qualquer estação do ano, logo à entrada do pequeno portão.
O sótão, enorme e misterioso, repleto de arcas, caixas e instrumentos de cultivo antigos, autênticas peças de museu. A entrada para a antiga garrafeira, na cave, com outra entrada interior através de um alçapão na sala-de-jantar. A casa-do-forno, onde muito pão e bolos foram cozidos, ao longo de gerações. O jardim, criteriosamente tratado, com as suas áreas delimitadas: rosas, de todas as espécies e cores, aqui, malmequeres, brancos, e amarelos, do outro lado, goivos e petúnias num canteiro central, amores-perfeitos um pouco por todo o lado, bem ao gosto da minha mãe, e as imprescindíveis sardinheiras a sublinhar o pátio, a que chamamos "passeio", mas que mais não é que um espaço de calçada, com cerca de 3 metros de largura, a todo o comprimento da casa, entre a frente da mesma e o jardim. O pomar, diversificado por espécies e esteticamente definido, em termos da cor e do perfume das flores na primavera, e dos frutos, no verão. A adega, onde ainda se pisavam as uvas no lagar quando eu era miúda e me deixava inebriar pelo forte aroma do mosto. O poço sem fundo. Nascente inesgotável: quanto mais água se tirava mais aparecia, horas depois, nunca tendo sido possível, nem com a ajuda dos bombeiros, esvaziá-lo completamente, para limpeza. O tanque que, à falta de melhor, serviu muitas e muitas vezes de piscina. O rio a separar a quinta em duas. A vinha do lado de lá, com cinco escassos metros de ponte de madeira a separá-la do lado de cá. No topo da vinha, que ficava na colina, o muro que a separa da estrada romana que, sendo um dos caminhos que certamente nos levaria a Roma, tomávamos para dar um passseio até ao antigo Convento, com a sua Igreja e Cemitério.
O calor dentro da casa, no Inverno.
A casa fresca e arejada no Verão.
O perfume das flores, das ervas, da fruta nas árvores.
A cor do campo, da terra, do céu. O som da água a correr, no riacho. Os choupos, altos e esguios, a acompanhar o curso do ribeiro.

Aquela casa já tinha, de fonte segura, para mais de um século quando eu nasci.


Apesar de a designação oficial da propriedade ser "Quinta da Ponte do Arco", a fazer jus ao belo arco romano sobre o qual a estrada fora construída, sempre lhe chamaram "A Obra".
Conta-se na família que, à data da construção das primeiras linhas de caminho de ferro estava previsto que o comboio passasse exactamente a meio do que viria a ser o jardim. A casa, essa teria sido inicialmente concebida para armazém dos produtos colhidos da terra que seriam transportados para consumo noutros destinos.

Imagina-se que a obra, por qualquer razão que desconheço, tenha estado embargada durante tempo suficiente para que o local viesse a merecer essa designação alternativa. Há mesmo quem, ainda hoje, lhe chame "Quinta da Obra". A realidade é que a linha foi desviada para uns 15 Kms a Oeste e o comboio nunca se fez ouvir naquelas paragens.

O meu trisavô materno, proprietário do local, decidiu então dar-lhe outro fim. Já que tinha a filha primogénita casadoira e o vale era aprazível, transformou o projecto de armazém numa casa de habitação e ofereceu-a aos jovens nubentes.

Na casa nasceram, viveram e morreram pessoas que deixaram um grande vazio em mim, quando partiram. Desde a minha bisavó, Mafalda, (há muitos anos viúva do bisavô Luís Filipe), ao meu avô Francisco e, por opção sua, também o meu jovem marido escolheu, há quase doze anos, aquela casa para viver os seus últimos dias. Era um sítio alegre, dizia ele, e à sombra da ameixeira, na companhia das sardinheiras, multicoloridas, o seu sofrimento era minorado, permitindo-lhe assim fruir, com algum prazer, o tempo que se lhe ia esgotando para estar com os seus.

Memórias.


Muitas memórias felizes da infância, (como a de tantas infâncias, infelizmente não de todas) das brincadeiras e risadas que os meus irmãos e eu soltávamos, a andar de triciclo, a jogar à bola ou a fazer piqueniques (irónico, não é? vivíamos no campo e íamos fazer piqueniques para o pinhal ou mesmo para o meio do pomar, como se tivéssemos acabado de chegar da cidade e sentíssemos uma necessidade premente de um contacto directo e estreito com a natureza - naquele espaço tão nosso, tão de dentro de nós, tão pleno de nós em todos os seus recantos).



Memórias dos meus pais, ainda enquanto casal, a viver uma vida aparentente feliz com a sua prole. Talvez o tenham sido... naquele tempo! Certo é que, se o não eram, nem por isso deixavam transbordar uma gota de azedume à nossa frente e, olhando agora para trás, seria, de todo, impensável que existisse alguma transferência de desamor para as três crianças que através da sua união tinham vindo ao mundo.



Memórias de nós, mais tarde, com os próprios filhos, a partilharmos, com um prazer inenarrável, aquele lugar. A revermo-nos nas crianças que agora subiam às árvores, tomavam banho no tanque e arreliavam a avó passando com a bicicleta exactamente por cima do tufo de lírios.

À noite, após o jantar na grande mesa da sala onde cabia a família inteira, mais os inseparáveis companheiros de fim-de-semana, verdadeiros amigos nos bons e nos maus momentos, passávamos ao salão onde se fazia de tudo um pouco. Havia os que jogavam cartas, os que liam, os que viam televisão e os que simplesmente conversavam, junto à lareira. Todos, sem excepção, desfrutando o aconchego do lar. Aquilo sim, era a Obra. A "nossa" Obra.

Continua a ser a nossa Ponte do Arco e, possívelmente, virá a ser a dos nossos netos e bisnetos porque uma obra assim não pode ser destruída. Cada nesga da casa, do jardim, guarda miríades de recordações, todas tão caras a cada um de nós, a família da Obra.




É com gosto genuíno que digo a quem
apresento a casa: foi aqui que eu nasci, exactamente neste quarto, que era o dos meus pais na altura, e passou a ser o meu, por direito consuetudinário ou por um simples acaso. Pouco importa.

Apesar da incomensurável angústia que neste espaço foi, de igual modo, vivida, aquando da partida do meu marido para a sua derradeira morada, no jazigo de família a uns escassos 500 metros da casa, posso falar de tudo isto sem tristeza. A vida é feita desta manta de retalhos, tal qual as lindas colchas de "patchwork" que a minha mãe fazia. É bom lembrar os tempos felizes, mas também não faz mal recordar os menos venturosos. Há, até, uma dor suave e terna nesta mescla de sentimentos.


Sou uma pessoa de lugares.


Quero aos lugares da minha vida como se de entes queridos se tratassem. E na minha vida tem havido espaço para tantos lugares... todos tão amados.


Talvez porque foi no mês de Fevereiro que, há cinquenta anos, naquele local de afecto, se fez ouvir o meu primeiro choro, hoje foi o dia da Casa. Da Obra. Da Ponte do Arco.




sábado, fevereiro 17, 2007

Entardecer


Hoje acordei como o dia...

sem sol,
sem cor,
sem luz,
sem brilho,
sem calor.

Há, no entanto, uma "Paz"
na Natureza e dentro de mim.

Quase inércia,
quase melancolia,
quase abandono,
quase apatia.

Posso concluir que eu
e a Natureza
estamos em dia "não" (confortante!...)

Queremos estar em Paz.

Nem vento forte,
nem chuva torrencial,
nem maré viva,
nem sol escaldante.

Calmamente saborear a Vida...

Hoje assim...

Amanhã, outro dia...


Noémia Carvalhosa
(Ponte do Arco)