terça-feira, janeiro 01, 2008

Resoluções de Ano Novo

(Fotografia de António Rodrigues)

No primeiro dia do novo ano, após o almoço com a família, Filipe vestiu o casaco de capuz, pegou no caderninho de linhas e num lápis, enfiou-os no bolso direito, onde ainda havia espaço para a mão, apesar de enluvada por grossa lã, e percorreu o caminho até ao molhe leste.

Olhou o farolim, ao fundo, mas não teve vontade de percorrer todo o caminho de cimento até lá chegar. Sentou-se quase no princípio do molhe, mesmo à beira, para inalar o cheiro a maresia emanado pelas vagas que fustigavam as rochas, logo ali, dois metros abaixo de si, virado para a praia dos Supertubos, onde alguns dos seus amigos davam as boas vindas ao ano recém-chegado no exercício do que mais gostam na vida: surfar.

O Filipe também gosta de apanhar ondas e, normalmente, acompanha-os. Neste dia, porém, a sua disposição era outra: desde que lera "O diário secreto de Adrian Mole aos 13 anos e 3/4", oferecido pela tia Helena no dia em que fizera treze anos, que se identificava com o herói da história (um adolescente tão cheio de borbulhas, inseguro e desgraçado quanto ele). Esperou, pacientemente, pelo primeiro dia do ano de 2008 (o aniversário tinha sido em Março) e dispôs-se, finalmente, a enumerar a sua lista de decisões pensadas e repensadas ao longo de vários meses.

Olhou fixamente o horizonte por uns instantes, respirou fundo, e começou a escrever, à imagem e semelhança do que, supostamente, fizera o seu imaginado companheiro de infortúnio, quando tinha a sua idade, há alguns anos, num outro país da Europa.

Acabou por escrever um plágio do início do citado livro, com umas pequeníssimas diferenças, perfeitamente explicáveis em termos cronológicos e geográficos, da seguinte forma:

"Terça-feira, 1 de Janeiro,

FERIADO EM INGLATERRA, IRLANDA, ESCÓCIA E PAÍS DE GALES (e também em PORTUGAL)


Estas são as minhas resoluções para o Ano Novo:


1. Estudar Matemática

2. Resistir ao consumo de tabaco, álcool e drogas

3. Visitar os meus avós, pelo menos, uma vez por semana

4. Deixar de fechar a minha irmã Joana no quarto de cada vez que me irrita

5. Passear o cão e ajudar a mudar o areão dos gatos

6. Não espremer as borbulhas

7. Tentar impedir que o meu pai maltrate a minha mãe quando bebe

8. Evitar, a todo o custo, corar, quando dou de caras com a Mónica"

E pronto, tal qual o Adrian, tinha acabado a listagem: 8 coisas. Por coincidência, parecia-lhe bem o número de resoluções, tendo em conta o ano que tinha acabado de entrar. Possivelmente, no ano seguinte, escreveria 9 resoluções... de seguida pensou: "que disparate! E em 2050 vou escrever 50 resoluções?" Logo a seguir deu uma gargalhada e voltou a chamar-se à razão: "outro disparate! É lógico que em 2050 já não vou escrever listas de resoluções!".

Fechou o caderninho, voltou a enfiá-lo, e ao lápis, no bolso direito e, ainda a sorrir, levantou-se, com um orgulhoso sentimento de dever cumprido ("ainda que mais ou menos copiado... quero lá saber! Náo é mau copiar o que é bom!... mas que raio de frase esquisita... será que nem a pensar consigo utilizar linguagem bonita, construir uma "sentença" com pés e cabeça? Se calhar deveria ter acrescentado português na primeira resolução, a que tinha a ver com o estudo!")

Antes de voltar para casa passou pelo café que ficava no caminho, para beber um leite com chocolate quente e comer um pãozinho com linguiça, acabadinho de fazer.

Foi então que deu de caras com a Mónica, sentada numa das mesas, em divertida brincadeira com as amigas. Ao sentir o rubor aflorar-lhe às faces pensou recuar, abdicar da apetecida merenda... depois, lembrou-se das resoluções de Ano Novo que acabara de escrever e entrou, dirigindo-se, em passo decidido, ao balcão, onde se sentou num banco alto. Enquanto o empregado não o atendia mirou-se ao espelho e viu uma borbulha, ENORME, no queixo.

Fez o pedido e, enquanto aguardava, ía dando, pelo espelho, uma espreitadela à mesa onde a Mónica e as amigas continuavam a rir.

Porque o leite e o pãozinho demoraram a chegar, atirou-se à borbulha furiosamente e espremeu-a com força, frente ao espelho, suportando a dor até fazer sangue.

13 comentários:

Maria disse...

Não pude deixar de sorrir....
Tenho todos os livros do Adrian Mole, e esta estória que contas aqui é tão deliciosa quanto os livros....

Beijo, Maria

Rosa dos Ventos disse...

Estou como a Maria...
Fizeste-me sorrir logo de manhã...quer dizer não é assim tão cedo como isso!

Um abraço

d.e. disse...

Querida Maria:
Um bom ano de 2008 também para ti.Obrigado pela atenção com que tens seguido os meus textos. Como acabei de dizer à Mafalda, as intermitências da minha escrita devem-se ao facto de ter iniciado este ano lectivo um curso de mestrado, o que somado ao trabalho profissional me tem retirado o tempo para as "artes poéticas".
A verdade é que já tenho idade para ter juízo, mas sou um fraco, não consigo resistir ao canto das sereias.
Um grande abraço,

Graça Pires disse...

Gostei da história. Deliciosa e "real". Bons propósitos... Nem sempre é fácil conseguir levá-los adiante.
Um beijo.

alice disse...

às vezes, fazemos planos com a intenção clara de contrariá-los. gostei de ler, maria. bom ano.

Bichodeconta disse...

Que delicia, que bonita maneira de começar o novo ano... Prosa deliciosa..um abraço e o desejo de bom ano...

Amita disse...

Adorei voltar a ler-te e do sorriso que me colocaste nos lábios. Um bjinho grande e um bom ano para ti e para a tua mae (sao encantadoras, adorei conhecer-vos)

Mel de Carvalho disse...

Querida Maria,
também eu fui até ao molhe leste ... estava lá. Mas asseguro que não vi o Filipe, devia estar muito distraida mesmo, bolas.

Andei numa "neblina" constante por esses dias, confesso... pela primeira vez desde há muitos anos, no momento da passagem do ano, não me ocorreu formular qualquer desejo. Nada! Apenas lamentei ausências (de vivos e mortos). Foi neles que pensei e, desejei abracá-los. Tão somente... Olha, afinal desejei ... abraços!

Maria, perdoa a minha ausência neste espaço que muito considero. Gosto do que escreves e da pessoa que adivinho pora lá da tela!

Recebe um forte abraço e votos de dias lindos neste 2008.

Beijos d(a)e Mel

Luisa disse...

Não me sorri porque senti todo o sofrimento de quem é adolescente e não sabe como sair dessa fase. Eles pensam que vai durar sempre, não sabem que com o tempo tudo se remedeia: as borbulhas, a matemática, as Mónicas!

Nilson Barcelli disse...

Achei piada ao teu texto de ano novo.
Diferente e divertido.

Bfs, beijinhos.

caminante disse...

María, feliz año 2008. Todavía es a tiempo.
No importan los propósitos, sí la constancia en realizarlos. Esto exige constancia, esfuerzo, buen humor para no desanimar. Y saber que las largas caminatas se hacen paso a paso. "Despacio se llega lejos".
Dile a tu amigo que recomience. Y llegará lejos.
Un fortísimo abrazo.

alice disse...

boa tarde, maria. vim saber de si. está tudo bem? publique-se, sim?

:) beijinho.

APC disse...

Ahahaha... Onde diabo foste buscar esta giríssima inspiração, com uma moral de fundo que não tem como nos não pregar um sorriso no rosto? :-)

Mas, sabes? Eu acho que é possível que em 2050 ele dê por si a fazer uma lista de intenções, sim senhora! Nessa altura não terá acne nem desmedidos rubores, há muito não terá avós... Mas intenções, temo-las pela vida fora, o que é bom!

Grande beijinho!