Deitada na areia molhada
deixo que pequenas ondas
me invadam corpo e alma
num torpor enlanguescido.
A água, morna, conforta-me.
Sinto que lhe pertenço:
dela vim, num sortilégio do passado,
a ela, em farrapos, voltarei um dia.
Admiro o céu, sem núvens,
imaculado no azul do entardecer.
Uma brisa quente varre, com doçura, o areal,
trazida pelo mar, tímida como a espuma
que com os dedos desfaço e me humedece os cabelos.
No horizonte, o sol é uma bola de fogo,
forjando um adormecer tranquilo:
diária magia que executa de mansinho,
escondendo-se atrás da linha vísível
para surgir, radioso, do outro lado do mundo.
Inspiro o cheiro a maresia:
o ar que penetra o meu ser
limpa e lava qualquer dor,
lembra-me aqueles que amo.
Tenho tudo, sou feliz:
terra, água, fogo e ar,
eterno ciclo de vida.
Com emoção retribuo, agradecida,
da natureza o carinhoso abraço.
Sou rio.
Broto da escarpa rochosa:
ténue fiozinho de água
deslizando pela encosta,
molhando fragas e arbustos
até alcançar o vale
na procura de um riacho.
Irmãos-de-água fundidos
corremos alegremente,
na inocência da infância,
cantando e rumorejando
por sobre as pedras do leito
que nos indica o caminho.
Engrossei o meu caudal,
já tenho curvas e praias.
Rápidos alucinantes,
num rodopio de volúpia,
precipitam-me na queda
em vertiginosa cascata,
numa lagoa serena.
É dali que parto, eufórico,
enriquecido pelas águas
de outros rios solitários
que comigo se reúnem
e num só se consolidam:
imenso, forte, profundo.
Em desassossego e exaltação
o mar agora procuro
para nele, em largo manto,
consumar o meu destino:
confundir os nossos fluidos,
acertar nossas marés.
Sou rio.
(De costas voltadas
para a porta
pressinto a tua chegada:
aproximação doce e suave
que me faz estremecer
em prazer antecipado.
Enlaças-me pela cintura,
teu rosto encostado ao meu cabelo.
Um murmúrio terno e quente
me roça ao de leve o ouvido.
Lábios macios e ardentes
beijam-me a nuca, ansiosa.
Rio que sou, a ti me entrego:
Estuário vigoroso, excessivo, apressado
que o teu mar acolhe em festa.
Sorrio.)