quinta-feira, julho 31, 2008

A Tela da Vida


João Cristino da Silva (1829-1877)
Cinco Artistas em Sintra - 1855
Óleo sobre tela, 863 x 1288mm

"A obra Cinco Artistas em Sintra é, indiscutivelmente, uma obra emblemática do Romantismo português. Trata-se do primeiro retrato de grupo na pintura, foi elaborado com o objectivo de representar Portugal na Exposição Universal de Paris em 1855.Nela podemos observar cinco artistas rodeados por gente do povo e num ambiente agreste.A composição foi esboçada no local e apresenta-se de forma cenográfica, sugerindo o processo de trabalho típico do romantismo: pintura de paisagem ao ar livre, recolhida "do natural" e, posteriormente, elaborada em atelier. Esta obra é uma homenagem ao mestre Tomás de Anunciação que está no centro da composição (a pintar), e junto dele Francisco Metrass, com adereços do próprio autor - Cristino da Silva, que os gostava de exibir (chapéu à Rubens e capa larga). No segundo grupo encontramos Vítor Bastos (escultor), José Rodrigues (pintor), sentado no chão e Cristino da Silva (o autor da obra), encostado à rocha, elaborando um esboço, em pose artística.Nesta tranquila paisagem destaca-se o rochedo que de alguma forma confere unidade e coesão à obra. A presença de aldeãos que olham fascinados para o trabalho do senhor da cidade, representa uma espécie de ideal de ruralidade que fascinava os representantes do Romantismo português. Ao fundo, vislumbra-se o Palácio da Pena, um dos símbolos máximos do Romantismo, edificado por D. Fernando. As cores do quadro são terrosas, com predominância de tons de verde e castanho, sem grandes contrastes. A iluminação é estudada, dando o tom dourado de fim de tarde a toda a composição."

(Texto extraído de "Museus na Escola" museusnaescola.eselx.ipl.pt/static/instance/M...)


A Tela da Vida

A nossa vida é uma tela,
uma tela de mil cores,
todos nós pintamos nela,
somos bons ou maus pintores.

Com mais ou menos talento,
com tinta clara ou garrida,
por vezes com desalento
pintamos a nossa vida.

Há quem pinte com amor;
há quem pinte com paixão;
só não sabemos dar cor
ao que sente o coração.

Sabemos nós qual a cor
para pintar a amizade?
que tons daremos à dor?
como se pinta a saudade?

Ai, pobre de quem na vida
só tem negro p’ra pintar:
uma tela entristecida,
feita talvez a chorar.

(poema da autoria de Maria Teodora)

terça-feira, julho 15, 2008

A sensualidade na poesia feminina do Japão - "O Tanka"



PERÍODO HEIAN NO JAPÃO - FINAL DO SÉCULO VIII ATÉ FINAL DO SÉCULO XII - (Plena Idade Média na Europa)

A forma poética "tanka" constituída por 31 sílabas japonesas de apresentação vertical, é apresentada em tradução nas línguas ocidentais por cinco linhas que, mantendo tanto quanto possível o registo sonoro original, correspondem a cinco versos metricamente alternados de 5,7,5,7,7 sílabas.

As duas autoras que nos são apresentadas por Luísa Freire, Ono no Komachi (834? -?) e Izumi Shibiku (974? - 1034?) "foram as grandes representantes da poesia da corte de então e marcos importantes na poesia japonesa de todos os tempos que, ao longo dos séculos, se foram tornando uma lenda e uma referência. [...] " Ambas são figuras centrais dessa Idade de Ouro, durante a qual as mulheres escritoras tiveram um papel decisivo na fixação do japonês como língua poética".

[...]

"Há mil anos, a cidade capital Heian-Kyo (hoje Kyoto) era mais populosa do que qualquer cidade da Europa e um dos centros altamente civilizados do mundo. Os aristocratas aspiravam ao favor político que lhes trouxesse posição e poder e as filhas dessas famílias eram mandadas aos catorze anos para a corte, para servir os membros imperiais. Como era através do casamento que a sua posição e o seu estatuto se afirmavam, as raparigas eram cuidadosamente educadas e cultivadas para, esteticamente, competirem com os homens em termos de igualdade. Na corte, divertiam-se e divertiam a imperatriz com música e versos, mas a sua atenção ia para os assuntos do coração. Os "casos amorosos" eram aceites às mulheres solteiras e a poligamia era habitual nos homens. Assim sendo, compreende-se que o erotismo fosse tópico literário, reflectindo todo o ambiente que se vivia."

Passo, então, a transcrever, apenas à laia de exemplo, alguns dos tanka que considero de maior beleza e sensibilidade amorosa:



De Komachi:


Será que apareceu

só porque eu adormeci

a pensar nele?

Se eu soubesse que sonhava,

nunca teria acordado.

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Quando o meu desejo

se torna intenso de mais,

visto a roupa de dormir

virada pelo avesso,

escura casca da noite.

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O meu desejo de ti

é forte para contê-lo -

assim ninguém vai culpar-me

se à noite for ter contigo

pela estrada dos meus sonhos.

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Não há como vê-lo

nesta noite sem luar -

estou deitada e desperta,

os seios ardendo em desejo

e o coração em chamas.

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A noite mergulha

com um veado a chamar

em som agudo

e, ao ouvi-lo, escuto

um lado do próprio amor.

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Pescador não deixa

a baía plena de algas...

Vais abandonar

este corpo flutuante

à espera das tuas mãos?

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Triste a pescadora que,

longe, na Baía Suma,

perdeu um remo do barco -

assim é este meu corpo

sem ter a quem recorrer.

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Nos campos de Outuno,

se uma centena de flores

solta suas cores,

não posso também gozar

sem ter medo da vergonha?

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Este meu corpo

tão frágil e flutuante,

é uma cana sem raízes...

Se um rio acaso pedir

que o siga, eu acho que irei.


Fim da selecção de Komachi


DE SHIKIBU:

Deitada e sozinha

de cabelo negro solto

e emaranhado,

sinto desejo daquele

que primeiro o veio tocar.

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Porque não terei

pensado nisto já antes?

Este corpo meu

ao recordar tanto o teu

tem a marca que deixaste.

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Não há diferença -

a borboleta nocturna

que se veio queimar,

e aqui este meu corpo

que o amor veio transformar.

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Não fiques corado!

Todos adivinharão

que dormimos juntos

sob as pregas enrugadas

deste manto avermelhado

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Se o cavalo dele

tivesse sido domado

pela minha mão -

eu tê-lo-ia ensinado

a não seguir mais ninguém.

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Sem ser perturbado,

o meu jardim fica cheio

de mato estival -

como eu desejo que alguém

desbrave a erva profunda!

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Desejando vê-lo

para ser vista por ele -

se ele ao menos fosse

o espelho onde eu me olho

e que olho cada manhã!

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A gota de orvalho

permanece mais tempo

na folha de bambu

do que tu, que logo partes

antes do amanhecer.

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Este coração

de tanto te desejar

vai-se quebrando

em milhares pedacinhos -

mas nem um só vou perder.

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Mesmo quando um rio

de lágrimas atravessa

e molha este corpo,

não chega para apagar

todo o fogo do amor.

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Penso: "nos meus sonhos

poderemos encontrar-nos"...

Virando a almofada,

eu ando às voltas na cama

incapaz de adormecer.

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Deixada aqui

a envelhecer no mundo

sem ti ao meu lado,

as flores perdem a beleza

tingidas de negra cor.

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Meu corpo perdido

só conhece agora a noite -

por isso as mangas no escuro

permanecem encharcadas,

impossíveis de secar.

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Ao lembrar-me de ti...

Os pirilampos do campo

parecem centelhas vivas

que se desprendem e soltam

dos desejos de meu corpo.


Fim da Selecção de Shikibu