
Na pequena aldeia, o relógio da torre da igreja tinha acabado de fazer soar a 6ª badalada. Luísa pensou "ainda seis da manhã... há noites que demoram eternidades a passar!". Virou-se para o outro lado da cama, aconchegou a almofada por forma a nela melhor enterrar a cabeça e voltou a tentar dormir. Mais uma badalada "seis e meia, estou farta!". Acendeu o candeeiro da mesa-de-cabeceira e ficou a olhar para o tecto, de madeira pintada, onde algumas falhas de tinta faziam surgir estranhas formas: uma cabeça de lobo (ou de cão?)... a silhueta de uma jovem mulher... um chapéu de abas largas... uma flor, sem caule, à qual faltavam algumas pétalas... "e pronto! mais uma noite sem dormir! Durante quanto tempo aguentarei este inferno?"
Sentou-se na cama. Já que não dormia era melhor que se fosse preparando para mais um dia de trabalho. A rotina habitual: o duche e a escovadela de dentes, a roupa que tirava maquinalmente do roupeiro e enfiava no corpo, uma penteadela nos cabelos soltos, que terminariam presos numa fita, em rabo-de-cavalo, o pequeno-almoço a sós, a comida que, invariavelmente, deixava aos seus únicos companheiros de habitação: o casal de gatos. Um último relance ao espelho, por mero hábito, dado que, ainda que os sapatos ou as meias fossem de pares diferentes, não daria por isso.
Sentou-se na cama. Já que não dormia era melhor que se fosse preparando para mais um dia de trabalho. A rotina habitual: o duche e a escovadela de dentes, a roupa que tirava maquinalmente do roupeiro e enfiava no corpo, uma penteadela nos cabelos soltos, que terminariam presos numa fita, em rabo-de-cavalo, o pequeno-almoço a sós, a comida que, invariavelmente, deixava aos seus únicos companheiros de habitação: o casal de gatos. Um último relance ao espelho, por mero hábito, dado que, ainda que os sapatos ou as meias fossem de pares diferentes, não daria por isso.
Abriu o portão da velha casa de campo que tinha herdado da avó (que sorte a dela! até tinha casa própria a apenas 20Kms da escola onde tinha ido parar) e reparou que o sol começava a despontar, por cima dos choupos que ladeavam o ribeiro. "Vai estar um dia bonito." Tirou o carro da garagem e fez-se à estrada, em direcção à vila. Ainda faltava muito para a primeira aula. Iria ter tempo para saborear uma chávena de café antes de entrar na escola e, quem sabe, encontrar alguém com quem trocar duas palavras: as primeiras do dia. Depois de entrar na sala de aula, a sua voz não teria mais descanso. E como se sentia cansada! Farta daquela vida de solidão, longe da família, dos amigos... desterrada: era esse o termo. "E pensar que sempre acreditei que a vocação era o mais importante!... já nem ensinar me dá prazer... tenho que pagar um preço demasiado alto para fazer o que gosto (ou gostava, agora sinto que começo a detestar) e para poder contribuir para o sustento dos meus filhos. Pois é, o dinheiro também faz falta... mas o que me dói a ausência das noites de amor com o Gabriel, agora reduzidas ao escasso e frenético fim-de-semana! que saudades de ler uma história à Alice antes de adormecer... os seus bracinhos à volta do meu pescoço, o beijo de boa noite e o até amanhã, mãe... e o Vasco, tão pequenino! Um dia destes vai dar os seus primeiros passinhos e eu nem vou estar por perto para assistir. "
Sozinha ao volante, percorrendo a sinuosa estrada que já conhecia de cor, sorriu com amarga ironia e proferiu em voz alta "e ainda devo dar Graças e sentir-me abençoada pela Fortuna. Afinal, muitos dos meus colegas nem sequer uma colocação a 300 Kms de casa conseguem!!!"
Mais uma curva apertada, incompreensivelmente inesperada. Luísa despertou com o abusivo e roufenho som de buzina do camião que, surgindo do nada, parecia ocupar toda a estrada à sua frente.
Sozinha ao volante, percorrendo a sinuosa estrada que já conhecia de cor, sorriu com amarga ironia e proferiu em voz alta "e ainda devo dar Graças e sentir-me abençoada pela Fortuna. Afinal, muitos dos meus colegas nem sequer uma colocação a 300 Kms de casa conseguem!!!"
Mais uma curva apertada, incompreensivelmente inesperada. Luísa despertou com o abusivo e roufenho som de buzina do camião que, surgindo do nada, parecia ocupar toda a estrada à sua frente.













