segunda-feira, outubro 24, 2016

Histórias do meu Tonho




Tempestade. Forte sopra o vento sobre a vila piscatória, grandes ondas, mar agitado. Neptuno parece zangado.

Em terra, pescadores observam a branca espuma quebrando o negro da noite. Espera-se. Aguarda-se por melhoria do tempo, tempo esse que escasseia para uma faina normal.
"Porque não vamos? Ou vamos para o mar, ou vamos para casa". Ouve-se em murmúrios. Ao vento e ao frio,  pescadores anseiam por ordens dos seus mestres.
Meia-noite. Ouvem-se as doze badaladas do velho sino da igreja. Um novo dia começa. A ansiedade termina: "Regressamos a casa. Ordens para as nove da manhã!". Debandada geral rumo ao calor do lar, ao porto de abrigo, que são as suas famílias.

Joaquim inicia o seu habitual trajecto em direcção ao velho bairro onde habita. Fracas luzes iluminam os seus passos. O vento parece ajudá-lo a encurtar a distância a percorrer. Ei-lo chegado à escada de sua casa, com a cesta do farnel numa mão e já com a chave na outra. Basta-lhe subir ao primeiro andar para chegar a bom porto.
Já à porta, Joaquim insere a chave na fechadura e roda-a, num misto de exaustão e alegria.

Abre a porta e detém-se, imobilizado. A sala encontra-se iluminada àquela hora tardia. Encosta-se, para não cair, enquanto das mãos lhe escorrega a cesta. No seu típico gaguejar, diz "À... à... à c'anzana, Maria... à c'anzana, e eu nada!" Tinha acabado de apanhar a mulher em pleno acto de adultério, com um gigante, musculado, de calças arreadas, e agora imóvel, homem de raça negra.

Maria, sem sair da caricata posição em que tinha sido encontrada,  questiona o marido, em tom furioso,  virando o pescoço para trás e lançando-lhe um olhar de ódio "O que estás a fazer aqui, desgraçado? Não foste ao mar porquê, pilante?"

Joaquim responde, ainda encostado à porta, com os olhos fixos na inusitada imagem à sua frente "O mestre mandou para casa, e eu vim."

"E não sabias ficar no armazém, seu atrasado? Tinhas que vir para casa?"

"Queria ter sexo contigo, Maria. Mas acho que cheguei tarde!"

"Tu? Ah pá, achas que se valesses alguma coisa eu precisava de ajuda?"

Aqui começa a discussão. Maria opta por uma posição mais consentânea com o confronto que aí vem. Exalta-se e, erguendo-se, cresce para o Joaquim e maltrata-o verbalmente.
Os vizinhos, que entretanto se apercebem da gritaria, acercam-se das escadas. A voz de Maria ecoa por todo o bairro. Joaquim, ao aperceber-se da  presença da vizinhança, atenta ao que se passa naquele primeiro andar, riposta aos berros, chamando puta e galdéria à sua mulher. O gigante negro continua imóvel, como se de uma estátua de ébano se tratasse. Em baixo, os vizinhos vão seguindo alegremente o degradante espectáculo e, entre alhos e bugalhos, Maria esbofeteia Joaquim, para gáudio dos assistentes.

O nível da discussão aumenta. Maria agride em crescendo, verbal e fisicamente o seu homem. Joaquim tenta defender-se, limitando-se a balbuciar meias-palavras, devido à gaguez de que padece, acrescida de profundo nervosismo perante a situação.
A multidão, instalada na rua, ri a bom rir. Joaquim, implacavelmente ferido no seu orgulho de macho, consegue finalmente sobrepor a sua voz ao ruído da discussão e articular uma frase completa: "Tu és uma puta!". Maria, ofendida, aplica um forte soco no rosto do homem, que o desequilibra e faz com que desça as escadas, contando os vinte degraus, um a um, com os costados.

Sentado no chão, completamente dorido e vendo os vizinhos a rir, Joaquim tenta, a custo, levantar-se. Embora ferido, e emocionalmente destroçado, consegue erguer-se e, olhando para o cimo da escada, onde Maria, com as mãos na cintura, o contempla com ar desafiante, diz em voz bem alta, miraculosamente sem gaguejar: "Isto não acaba aqui. Amanhã levas mais, ouviste?". E parte, sozinho, a cambalear, para se embrenhar mais à frente na noite escura.

Amanhece. Na velha ribeira algo de novo parece passar-se. Ouvem-se, aqui e ali, murmúrios e risadas, saídos dos pequenos aglomerados de pescadores e varinas. Há festa, sem dela haver sinais evidentes. A azáfama do vaivém das chatas, levando e trazendo os pescadores, faz parte do cenário de um dia normal naquele porto de pesca. Apenas as sonoras gargalhadas soltas pelas potentes vozes das varinas intrigam os transeuntes que por ali passam.

Joaquim cumpre as ordens. Às 9 horas da manhã chega à ribeira e, em vez do habitual bom dia, é cumprimentado pelos camaradas com a inesperada frase: "À c'anzana, Esquim, à c'anzana... e tu, nada!",  frase esta que é repetida até ao limite da sua paciência. Triste, Joaquim baixa a cabeça (enquanto mentes maldosas pensam, embora não o digam que, literalmente, baixa os cornos) e continua a andar, ferido por dentro, até alcançar uma pequena lancha, onde se senta, na mais profunda solidão.

Lança o olhar para a multidão que, atentamente, o observa e vê colegas, amigos e pessoas anónimas, com ar de diversão. É ele o motivo da chacota de toda aquela gente e, no seu canto, não pára de ouvir a frase que o tortura "À c'anzana, Maria, à c'anzana... e eu nada!".

De repente, como que numa visão, Maria surge de entre o amontoado de gente, sorridente e com ar vitorioso, elevada à categoria de heroína por um acto de adultério. Joaquim não consegue conter a ira que dele se apodera perante tal contra-senso. Furioso,  ergue-se e pega num pequeno remo existente na lancha onde se tinha sentado. É com o corpo todo a tremer que se dirige à mulher, de forma agressiva, empunhando bem alto o remo e gritando, num tom suficientemente audível para chamar sobre si a atenção da turba agitada, que recua em conjunto.

Maria fica isolada num frente a frente com o seu homem. Faz-se silêncio na ribeira. A expectativa aumenta. Maria, imóvel, apenas olha para ele. O espaço entre ambos diminui.

A tensão cresce no recinto, quando Joaquim solta uma frase, erguendo mais alto o remo "Ah, puta de merda! Agora é que vais ver!"

Instala-se um silêncio de morte na ribeira. Até as gaivotas, que por ali esvoaçam, deixam de grasnar, como que em cumplicidade. O mar bate no molhe sem se fazer ouvir, e as pessoas acotovelam-se, inertes,  suspensas do desenrolar da cena entre o casal.

O remo começa a descer ao encontro do corpo de Maria. Paira no ar um augúrio de tragédia. Subitamente, o remo é travado na sua descida.  Um par de mãos  se junta às de Joaquim. São as mãos de uma varina, são as mãos de Maria que, conseguindo interceptar a trajectória do remo em direcção ao seu corpo, com um forte puxão o arranca das mãos trémulas de Joaquim.

Vira-se o feitiço contra o feiticeiro.  Agora, é Maria quem segura o remo e, com ele, desata a bater desalmadamente no marido, num sobe e desce estonteante sobre o corpo de um Joaquim cada vez mais magoado, ferido, humilhado.

O povo, a tudo assistindo entre o impávido e o incrédulo, não reage, pois entre marido e mulher ninguém deve meter a colher, assim diz o ditado, que aqui impera como lei.

Joaquim quebra perante a violência da mulher. Cada pancada daquele remo é mais uma tonelada, de peso e de dor, sobre o seu corpo cada vez mais frágil. Acaba por cair, no chão da calçada. Ali jaz, perdendo os sentidos.

Maria lança-lhe um olhar de desprezo, cospe para o lado e atira o remo para longe. Tarefa cumprida, vira-lhe as costas e afasta-se, sem uma palavra.

A ausência de qualquer som parece intensificar-se nos momentos que se seguem. Todos os olhos se fixam no corpo inanimado. Uma voz, vinda do nada, quebra o silêncio a medo "o Esquim tá morto!".

Mas não. Sobrepondo-se a toda a dor, a muito custo, Joaquim consegue abrir os olhos e observa a multidão que, insensível e imperturbada, assiste à sua tragédia. Apenas uma suave brisa corta o silêncio. Estranha manhã aquela!

Sentindo o amargo sabor do orgulho ferido, num apelo ao que resta das suas forças,  Joaquim senta-se no chão frio, ergue a cabeça e procura Maria com o olhar, que se detém ao encontrá-la. O suspense aumenta entre a assistência. Nunca aquela ruidosa ribeira conhecera tal quietude.

Joaquim levanta um braço, dorido e oscilante, em direcção à mulher. Aponta-lhe um dedo e, quebrando todo o mutismo, solta bem alto as palavras:

 "Maria, não te esqueças... e lá em casa levas mais!"


FIM

Foto: Tempestade, de António Rodrigues

sábado, maio 28, 2016

O Planeta Verde



Este texto foi escrito, e publicado na minha página do Facebook, no dia 13 de Janeiro de 2014. Na altura não o partilhei neste espaço porque, por razões que eu própria desconheço, tinha este meu blogue inactivo. Senti, agora, chegado o momento de o adicionar a todos os outros textos que aqui tenho divulgado.

O PLANETA VERDE
Meu querido Papá,
Hoje é o 7º dia após o seu falecimento e, talvez também por isso, esta noite lembrei-me de mais uma das muitas coisas que ao longo das nossas vidas tivemos em comum. Sim, ambos gostámos sempre muito de dormir e isso talvez porque, para ambos, dormir significa sonhar. E nós sempre tivemos a ventura de ter sonhos lindos, maravilhosos, fantásticos e, em sequência, sempre nos deu imenso prazer partilhá-los. Claro que também sonhamos acordados mas, neste caso, reporto-me especificamente aos sonhos ocorridos durante o sono.
Lembro-me, claramente, da primeira vez em que nos falou de um sonho fabuloso, talvez o mais extraordinário que alguma vez havia tido. Eu e os meus irmãos, ainda crianças, ouvíamos, extasiados, à volta da mesa do almoço, os prodígios, até ali inimagináveis, que o Papá nos contava sobre um incrível Planeta Verde, repleto de formosuras e encantos só comparáveis, para nós, aos dos contos de fadas.
Fui sabendo, no decurso do tempo, que as suas visitas nocturnas a este planeta se tornaram recorrentes, e que este era um dos locais preferidos de devaneio do seu inconsciente, enquanto dormia.
De tal forma se tornou um hábito, que fui crescendo com a nítida certeza de que, pelo menos para si, e para mim, por simpatia, este planeta existia mesmo. Confesso que, sem qualquer ponta de ciúme, cheguei a imaginar que nele tinha constituído uma segunda família, em quase tudo semelhante à nossa, com a diferença de que mais feliz, porque lá, no Planeta Verde, seria tudo mais perfeito: sem poluição, sem guerras, sem desigualdades sociais, sem mesquinhez, porque um planeta exemplar só poderia ser assim. Sei que o Papá, por mais de uma vez, chegou a dizer-nos "Gostava tanto de vos levar lá!".
Mais tarde, após ter lido "A Utopia", de Thomas More, recordo-me de ter pensado que o seu Planeta Verde conseguia ser ainda mais irrepreensível do que a ilha do escritor inglês, porquanto nessa existia escravatura, o que não sucedia no seu lugar de eleição.
Hoje, exactamente uma semana após a sua partida, gosto de pensar que, por fim, conseguiu viajar irreversivelmente para o seu Planeta Verde, e que não precisa mais de acordar como um comum terráqueo, neste Planeta a que, orgulhosamente, nos habituámos a chamar azul, apesar de tanto o maltratarmos. Sinto, igualmente, uma alegria ímpar quando penso que, um dia, quem sabe, poderá ser que me junte a si nesse planeta de sonho, quando o sono final sobre mim também se abater e a nossa cumplicidade onírica, enfim, se cumprir.
Aproveite bem, enquanto eu não chegar, meu querido Pai.
Depois, quando eu também já for habitante desse lugar de belezas únicas, desfrutá-lo-emos juntos. Que contentamento há-de ser o nosso, tenho a certeza!
Até lá... com muito, muito, muito Amor!
Fami
P.S: Seja quanto tempo for, vai passar num instante, face à eternidade que teremos, para nele podermos viver intensamente a felicidade!

quinta-feira, maio 26, 2016

ABANDONO



No dia em que me deixaste.
Sim, no dia em que disseste que ias deixar-me, em que assumiste que ias viver um novo amor, que ias trocar a nossa vida já sem graça por outra, resplandecente de paixão e beleza, pensei que podia morrer.
Quando saíste com as malas e bateste com a porta atrás de ti, senti que o meu mundo tinha desabado, irremediavelmente e para sempre. Fiquei sentada no último degrau da escada (o mais próximo da porta que tinha acabado de se fechar sobre os últimos anos da minha vida) durante horas, talvez mesmo dias, não sei.
A dor que me apertava o peito era tão forte, que cheguei a imaginar que, naquele mesmo sítio, sozinha, ia sofrer um enfarte, e para ali ficaria fria, sem vida, até que alguém notasse a minha ausência e decidisse saber de mim.
Não chorei, não gritei, não me manifestei de alguma forma audível. Penso que, a dada altura, tentei enroscar-me, ficando quase na posição fetal, sobre o mármore gelado da escada.
Não sei quanto tempo depois, o telefone tocou e o som funcionou como o de um despertador. Pus-me de pé, aconcheguei o robe sobre o pijama e, num gesto maquinal, agarrei nas chaves e deixei-as escorregar para dentro dum bolso. De seguida, saí para a rua, em chinelos de quarto, deambulando como um fantasma. Desconheço se alguém me viu, mas estou certa de que ninguém me interpelou, com o ar de louca, ou de sem-abrigo, que devia ostentar.
No meu desvario, dirigi-me para o portinho do meio, onde me deparei com um pequeno barco abandonado, degradado pela passagem do tempo, pelas marés, pelo sol e pela chuva, que parecia aguardar-me, para me acolher como um berço a um bebé.
Entrei nele e deitei-me ao comprido, assim ficando escondida de algum olhar curioso. O dia estava cinzento e triste - pareceu-me, mas não havia vento e a temperatura podia até ser considerada agradável.
Devo ter adormecido. Mais uma vez, não sei por quanto tempo, pois esse tinha-se tornado um conceito sem valor para mim.
Acredito que tenha sonhado, porque julguei que ia contigo numa embarcação maior e confortável, rumo às Berlengas. Íamos abraçados e tu beijavas-me, com ternura, enquanto me sussurravas palavras meigas. Eu correspondia-te, despreocupada e alegre, ansiosa por desembarcar na ilha que tanto amávamos e onde, sempre, tínhamos vivido momentos de felicidade intensa.
De repente, senti-me salpicar por gotas de água que, com a mente ainda entorpecida pelo sonho que me tinha embalado, julgava salgadas. Soergui-me, no pequeno barco abandonado do portinho do meio, e, surpreendida, constatei que estava completamente encharcada, não por causa de pequenas gotas salgadas, mas por autênticos pingos grossos de chuva. Daqueles que atravessam a roupa e a pele e nos ensopam até aos ossos.
"Que disparate!", disse em voz alta, como que para me ouvir melhor "Ainda apanho para aqui alguma pneumonia, vou parar ao Hospital e depois morro para lá. O melhor é ir já depressa para casa e meter-me debaixo do chuveiro para um duche bem quente. Depois, tomo uma aspirina e enfio-me na cama. Amanhã, hei-de acordar fresca como uma alface e vou trabalhar, como de costume."
No caminho de regresso, indiferente ao aspecto da minha figura grotesca, sentia-me leve e descontraída, quase aliviada, como se tivesse acordado de um pesadelo.
Foi a partir daí que passei a referir-me, sem mágoa, àquele episódio como "o dia em que me deixaste".
Maria Carvalhosa (inédito)
Foto: "Abandonado", do blogue http://olharesdemaresia.blogspot.pt, de António Rodrigues

segunda-feira, maio 23, 2016

DECISÃO


Depois de ter vagueado pela beira-mar durante um bom par de horas, sentou-se no pontão do Molhe Leste, à hora do crepúsculo. Um turbilhão de pensamentos povoava-lhe a cabeça, tornando-lhe impossível concentrar-se num único, que fizesse sentido e se apresentasse como a solução para o seu intrincado problema. Uma questão, em particular, a martirizava: "como iriam reagir os pais?" E logo de seguida surgia outra, igualmente premente: "e o curso, o curso ainda por acabar!?"
Simultaneamente, era-lhe difícil não pensar no Diogo e na inesperada reacção que ele tivera ao tomar conhecimento do assunto. Como era possível nunca se ter apercebido de quanto ele era insensível? Por que razão tinha sempre acreditado que a amava na mesma medida em que ela o fazia e que, juntos, conseguiriam fazer frente ao mundo, em qualquer situação? Tanta ingenuidade!
Não chorava. Não entendia porquê, mas as lágrimas não lhe afloravam aos olhos, que mantinha baixos, perdidos na contemplação do nada, que eram as suas pernas cruzadas sobre o cimento do molhe.
De súbito, precisou de olhar o sol, que começava a esconder-se para lá do mar, na linha do horizonte e, inusitadamente, ocorreu-lhe que estaria a nascer do outro lado do mundo, onde uma qualquer rapariga japonesa, com um nome muito diferente do seu, poderia estar a olhá-lo, naquele preciso momento, e a interrogar-se sobre questões em tudo idênticas às suas.
Sorriu timidamente perante o absurdo da ideia. E depois parou de sorrir. Impôs uma ordem lógica ao seu raciocínio, até aí errante, conseguindo, pela primeira vez naquela tarde, sentir-se confiante, sem receios e quase feliz.
Voltou a olhar para a vastidão do mar, num misto de desafio e cumplicidade para com aquela imensidão, sua única confidente.
Agora sim, estava segura. Havia ainda muitas respostas por dar, muitos caminhos por percorrer, mas de uma coisa tinha a certeza: queria aquele filho acima de tudo no mundo e nada, nem ninguém, com panóplias de argumentos e conselhos mais ou menos avisados, a iria fazer abdicar, sob que pretexto fosse, daquela decisão!
O sol, para a Ana, em Peniche, numa das praias mais ocidentais da Europa, não muito longe de Lisboa, tinha acabado de desaparecer por detrás da massa de água que a sua vista alcançava. Estaria a surgir, seguramente, em toda a sua plenitude, à jovem Natsuki, que o observava em Ichinomiya Chiba, numa das praias mais orientais da Ásia, não muito longe de Tóquio .
Levantou-se, contente por si e pela sua amiga imaginária, que só poderia ter tomado uma decisão igual à sua.
Enquanto caminhava de volta a casa, na semi-obscuridade do ocaso, sentiu que duas lágrimas doces lhe rolavam pelas faces.
Sorriu novamente, desta vez num sorriso aberto, erguendo a cabeça com alegria e determinação.
Maria Carvalhosa (inédito)
Foto: "Silhueta", do blogue http://olharesdemaresia.blogspot.pt, de António Rodrigues

sábado, janeiro 09, 2016

Começar de novo!



Recomeçar. Todos os dias. Não importa o quê nem porquê, há que começar de novo.

A propósito desta onda de revitalização de velhos blogues, esquecidos e abandonados, entregues à poeira do tempo, tenho assistido com alegria ao ressurgimento de alguns que, antes da supremacia das redes sociais sobre tudo o resto, fizeram as minhas delícias.

Começo por referir o que se passa aqui em casa, mesmo ao meu lado, com o fotoblogue Olhares de Maresia, do António, que, neste início de ano, tem sido alvo de intensa actividade. Depois, dou-me conta de que também o meu amigo Rui Fernandes decidiu ressuscitar  O Sítio do Tremontelo e, logo de seguida, que a minha amiga Maria manifesta vontade de voltar a dar mais atenção ao seu O Cheiro da Ilha.

Movida por uma imensa nostalgia, e vontade de rever velhos amigos, recomeço  a visitar os blogues das minhas queridas poetas Graça Pires, Ortografia do Olhar, e Licínia Quitério, O Sítio do Poema, sendo que estes sempre se mantiveram activos, ficando a inactividade toda da minha responsabilidade, já que, nos últimos anos, raramente os procurava. 

E eis-me também aqui, decidida a começar de novo. Veremos que continuidade terá e o que daqui sairá. Para já, não faço planos nem declarações de intenções. Limito-me a dar conhecimento deste facto aos meus amigos que, porventura, ainda possam tentar saber de mim por esta via, de quando em vez.
Até breve! ( assim o espero).


Video do Youtube - Começar de novo
Autor: Ivan Lins
Interpretação: Jane Monheit

quarta-feira, março 21, 2012

21 de MARÇO, DIA MUNDIAL DA POESIA

No Dia Mundial da Poesia: a minha sincera homenagem a alguns amigos pessoais, excelentes poetas, ainda pouco conhecidos e que, felizmente, se encontram vivos e de boa saúde!
A saber (por ordem alfabética):


Alberto Pereira
Graça Pires
José Luís Outono
Licínia Quitério
Mel de Carvalho


Também ao Mário Domingos que, para nossa mágoa, nos deixou no passado janeiro, apenas um mês volvido sobre a publicação do seu primeiro livro de poesia "O Despertar dos Verbos".


segunda-feira, março 19, 2012

19 DE MARÇO... E O PAI?



Era o primeiro Dia do Pai desde que o seu havia partido para sempre.
Na escola, há alguns dias que, sob orientações da professora, meninas e meninos tinham dado asas à sua criatividade e preparavam, com determinação e carinho, o presente que iria pintar um imenso sorriso no rosto do seu progenitor. 
Durante quase um dia inteiro, Duarte não conseguiu por mãos à obra, indeciso relativamente à posição a tomar perante a inexistência do pai vivo, mas igualmente incapaz de enfrentar, perante amigos e professora, a dura e cruel realidade da sua morte prematura, que nele havia deixado um estigma, uma cicatriz a ferro e fogo marcada.
Por fim, sem o entusiasmo radiante dos colegas, mas sem, por outro lado, dar mostras de contrariedade, o menino foi dando forma ao seu presente: numa cartolina vermelha tinha desenhado uma gravata. Depois, tinha-a recortado e, no suposto lugar do nó, tinha colado uma pequena moldura redonda, dentro da qual estava uma fotografia sua, recentemente tirada pelo fotógrafo da escola com esse mesmo propósito. Como remate, uma argolinha metálica permitia que pudesse ser pendurado num minúsculo prego, em qualquer parede.
Estava feito, portanto!
Chegado a casa, deu um apressado beijo no rosto da mãe e correu a refugiar-se no quarto, onde permaneceu num silêncio pouco habitual.
No quarto ao lado, a irmã estudava e, também ela particularmente taciturna nesse dia, secretamente entregue ao seu habitual sentimento de saudade, não deu mostras de ter notado que o irmãozinho mais novo tinha regressado da escola.
A mãe, atarefada com o jantar, não saiu da cozinha para tentar perceber a razão de tamanha urgência em passar despercebido.
Volvida uma meia hora, Duarte percorreu, pé ante pé, o corredor. Entrou na cozinha e, sem uma palavra, postou-se ao lado da mãe, que se encontrava perdida entre as folhas de couve e as lágrimas provocadas pela severa acidez de uma cebola, semidescascada.
Ao aperceber-se da sua silenciosa presença, a mãe olhou para Duarte. Viu o braço completamente estendido na sua direção e, na palma da mão, um embrulho com um laço.
Não percebeu imediatamente. Perguntou: “o que é isso?”.
Duarte encolheu os ombros, com um sorriso triste, e esticou ainda mais o braço, como que a dizer: “abre e não perguntes mais nada”.
A mãe secou as mãos, pegou no embrulho e abriu-o, intrigada. Ao ver o presente, deu graças por não estar a descascar uma cenoura, uma batata, ou mesmo um alho francês. Baixou-se e abraçou Duarte, murmurando “obrigada, querido filho, é lindo”. Fungou e limpou a face da criança, sorrindo, enquanto refilava “estas cebolas são mesmo agressivas. Da próxima, não trago das roxas”.
Deu a mão a Duarte e dirigiu-se ao quarto onde, na porta, uma pequena placa continuava a indicar “Quarto dos Pais”. Disse-lhe: “vamos já pendurar a tua fotografia. Estás tão bonito!". De seguida, chamou: "Mariana, anda ver o trabalho lindo que o mano trouxe."
Notou apenas para consigo que, desta vez, o presente não se tinha feito acompanhar do cartão que, invariavelmente, ostentava a frase: “Para o melhor Pai do Mundo”.


Imagem: web



quarta-feira, setembro 28, 2011

Retratos sem pose





Parece que o meu livro de contos breves, quase todos eles saídos deste blogue, vai, finalmente, ver a luz do dia!
Está para muito breve o lançamento em Lisboa.
Seguir-se-ão sessões de apresentação, do mesmo, no Porto e em Peniche.
Gostaria de poder ter ao meu lado, neste dia, o maior número possível de amigos.
Conto convosco. Até lá!




Notas:
1.  A capa foi concebida a partir de uma foto da pintura "Cinderela", de Júlia Calçada (óleo s/tela, monocromático)
2. O prefácio é de Graça Pires.
A minha imensa gratidão a ambas as artistas e amigas. 

terça-feira, agosto 16, 2011

Berlenga - reserva natural da Biosfera



As Berlengas vistas da Varanda de Pilatos (Cabo Carvoeiro) - foto de António Rodrigues

Amigos,
Passo a transcrever o texto que submeti ao desafio lançado pelo Presidente da Câmara de Peniche, em colaboração com a administração da Comunidade "Descobrir Portugal", que foi distinguido com uma Menção Honrosa. Esta distinção traduziu-se, além do mais, numa visita às Berlengas a bordo da Caravela "Vera Cruz" , no dia 17 de Julho de 2011, acto que assinalou a merecida classificação do Arquipélago das Berlengas como RESERVA MUNDIAL DA BIOSFERA.


Agora que as Berlengas tinham sido classificadas pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera, Joana, estudante de biologia marinha, não tinha como recusar o convite de Tiago para com ele ir, pela primeira vez, visitar aquele arquipélago de que sempre ouvira falar como um dos tesouros naturais de Portugal, não só em termos de beleza paisagística como de riqueza em biodiversidade.

Ainda no cais de Peniche, antes de embarcar, não conseguia evitar que as pernas lhe tremessem. Disfarçava como podia, tentava aparentar uma calma que estava muito longe de sentir. Sempre ouvira dizer que a travessia para as Berlengas era uma temerosa aventura e, de destemida, Joana nada tinha.

Na longa fila, pendurada no braço de Tiago enquanto esperava pela ordem de embarque, roía as unhas da mão que tinha disponível e, em silêncio, tentava rezar um Pai-Nosso, embora tivesse a certeza de que não estava a ser capaz de dizer a oração tal como a tinha aprendido.

Por fim a fila começou a mover-se em direcção ao barco. Alguns rapazes e raparigas, já lá dentro, soltavam gritos de euforia. Ela aconchegava-se mais e mais a Tiago enquanto caminhava, como se para o cadafalso se dirigisse.

Quando entraram pediu, com voz quase inaudível: "vamos lá para dentro, está bem?" O namorado sorriu, acariciou-lhe o cabelo e anuiu, embora tivesse preferido viajar na parte exterior, para sentir o vento e alguns salpicos de água salgada no rosto.  

Até ao Cabo Carvoeiro a embarcação parecia deslizar num rio, ou num lago, sem sobressaltos, e ela começou a relaxar um pouco. À passagem do Cabo, um grupo de pessoas no terraço da "Nau dos Corvos" acenava, alegremente, para os passageiros a bordo. Foi nesse momento que  o barco pareceu afundar-se a pique, para imediatamente voltar à tona, numa onda que lhe pareceu gigantesca e Joana sentiu o estômago aproximar-se perigosamente da garganta.
O episódio repetiu-se algumas vezes e Joana optou por manter os olhos fechados, embora essa táctica parecesse não resultar tão bem quanto desejaria.

Pouco tempo depois, Tiago murmurava-lhe ao ouvido "abre os olhos Joaninha, o espectáculo é admirável". Com relutância obedeceu e foi então que o medo, a má disposição de há segundos atrás, deram lugar a um olhar extasiado perante o cenário natural que tinha na sua frente: a ilha rosa, em todo o seu esplendor, rodeada de águas inimaginavelmente verdes e transparentes, parecia chamá-la. A atracção imediata fez com que nem desse pelos dez ou cinco minutos até à entrada no cais da Berlenga.  

Foi com desenvoltura que desembarcou, ansiosa por pisar aquele solo com o qual pressentia uma tão forte afinidade. Ignorou a mão que Tiago lhe estendia e saltou para terra com um genuíno sorriso nos lábios e um brilho ímpar nos olhos azuis. O rapaz fingiu-se ofendido e comentou, em tom de resmungo "pois, agora já não queres saber de mim!". Voltou-se para ele, soltando uma sonora gargalhada, beijou-o com paixão e segredou-lhe "obrigada, meu amor, por me teres trazido ao paraíso. Agora, vamos já, já, para a praia, que estou mortinha por mergulhar naquelas águas límpidas!".

O dia passou a correr. O jovem casal fruiu, intensamente, todas as maravilhas que a ilha tem para oferecer a quem a visita. Subiram até ao alto, de onde se desfruta uma vista de fazer suster a respiração. Sentaram-se a observar, deliciados, o voo planado das muitas gaivotas que povoam a ilha, e outras aves, como as pardelas e os corvos marinhos, que com elas coabitam. Desceram, sempre de mãos entrelaçadas e com risadas alegres, até ao Forte de S. João Baptista, que percorreram  de uma ponta à outra e, por fim, no cais da fortaleza, apanharam uma pequena lancha que os levou a visitar as grutas - cada uma mais fascinante e misteriosa que a anterior.  

Quando entraram no barco, para o regresso a Peniche, foi uma Joana extenuada mas intensamente feliz que pediu a Tiago, com doçura, "querido, trazes-me cá novamente no próximo fim-de-semana? Por favor!" 


12 de Julho de 2011

segunda-feira, maio 30, 2011

A nossa praia, Amor, a nossa praia!

Nota: Importante ver/ouvir o vídeo: o som do mar, o seu espraiar-se na areia... são beijos, carícias!


Vídeo de António Rodrigues, na Praia do Molhe Leste, Peniche, em 28 de Maio de 2011


(Título em paráfrase do soneto de Florbela Espanca: "A nossa casa, Amor, a nossa casa".)

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo? 
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?
  
Sonho...que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro -- tão bom! -- dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...


Florbela Espanca



Foto de António Rodrigues - Praia do Molhe Leste, Peniche, em 28/05/2011

quinta-feira, maio 12, 2011

As tardes


Pôr-do-sol no Molhe Leste - Foto de António Rodrigues

Passo agora as tardes à beira-mar. Dou longos passeios pela baía - pés na água e cabeça nas nuvens. Apanho búzios vazios. Desenvolvi, recentemente, um afecto especial por este tipo de conchas. Chego a comover-me quando encontro alguns destes lindos habitáculos, outrora com vida. Beijo-os, quais amuletos. Começo a desenhar aquilo a que já chamo "a minha colecção de búzios da praia do Molhe Leste". Na Praia Norte, igualmente rica em belezas outras, apenas existem seixos, pequenos calhaus rolados, ou cascas de bivalves partidas. Tem a ver com a força da rebentação, explicou-me o António, que já foi pescador e que, tal como o marinheiro de Mishima, por amor perdeu as graças do mar. Estou eu agora a recuperá-las, as graças, penso eu para comigo, com um sorriso não de todo inocente.

Avançando no prazer da água, que me banha e de mim aparta as mágoas, perco a noção do tempo, rejuvenesço, sinto-me vigorosa e bela.

Ao entardecer, quando chegam as gaivotas e as traineiras regressam da faina,  ainda por lá estou. Não arredo pé antes da hora do ocaso e, quase sempre, sou  brindada com um vislumbre do paraíso: o sol a esconder-se na linha do horizonte, pintando toda a paisagem em tons de fogo, contrastando com o azul do mar profundo, a brancura da espuma das ondas, o ouro-velho do areal imenso.

No Verão da minha existência, vivo as mais lindas tardes deste fim de Primavera. À beira-mar. A coleccionar búzios.

segunda-feira, abril 18, 2011

Naquele tempo


Berthe Morisot - Reading


Naquele tempo
passava os dias a ler o que escrevias.
Deixava-me extasiar
com o teu verbo fluente,
a simplicidade da tua arquitectura poética,
os múltiplos e profundos sentimentos
que em mim fazias despertar.

Naquele tempo
acreditava que HOJE podia ser SEMPRE
e que nós tínhamos vindo para ficar.

Era assim naquele tempo...


(inspirado num poema de João Villalobos, publicado no blogue "as penas do flamingo", em 03/06/2010)